Me perdi no tempo, sei mais que dia é hoje não.
FIM
A minha vida terminou.
51º dia do ano: A piedade humana.
As Feridas
Puxo a cadeira para dentro do banheiro. Das quatro baratas emborcadas que aqui se encontram apenas uma não desistiu. Continua contorcendo-se por inteiro, estendendo suas patas ao máximo, em uma tentativa desesperada pela sobrevivência. As outras; estáticas, imóveis, exatamente posicionadas no local em que sucumbiram há dias, sem nenhuma resistência, completamente passíveis à espera da morte. Do ponto final. Apenas esta coitada, encostada à lata de lixo, se enrosca e dá voltas no chão, procurando alcançar a liberdade.
Encontrei essas baratas feridas hoje de manhã, quando acordei. O cheiro está característico. Cheiro de barata. O cheiro da morte delas ou talvez o cheiro da sua insistência. Misturado ao odor fétido do meu banheiro, exala-se aqui um verdadeiro perfume ácido de matéria orgânica em decomposição. Três delas já parecem ter aceitado fazer parte dessa realidade, apenas uma. Apenas uma luta bravamente. E é essa determinação que me faz aplaudi-la, torcer e talvez vibrar com suas eventuais conquistas fragmentadas. Há horas está nisso, quanto mais poderá agüentar? Eu poderia ajudá-la com facilidade. Seria preciso uma vassoura, delicadamente encostaria os fios na delicada casca, empurraria e a desemborcaria. Por que não faço isso? Tenho nojo de barata, desejo vê-las todas mortas, me dá prazer observar atenciosamente esse espetáculo. A morte lenta da barata. Se eu pudesse ficaria admirando até o fim, mas creio que precisarei dar-lhe um alívio pela sua coragem e persistência.
Na minha frente está o sanitário. Cheio de mijo. Dentro há uma mistura homogênea líquida marrom. Com o acúmulo de várias mijadas foi possível atingir essa tonalidade. Tudo fede, tudo. Será que a barata também sente esse cheiro da latrina? Se eu jogasse todas elas dentro do vaso aposto que se reabilitariam, readquirindo a vitalidade. Insetos mais sujos! Parecem porcos de tão sujos. Sentem-se bem em meio à podridão. E por acaso eu estou incomodado com ela? Não.
Não tenho mais paciência para esperar o seu fim. Pela sua incrível determinação e força de vontade, darei minhas congratulações à barata. Dirijo minhas mãos em direção a ela e articulo os dedos imitando os movimentos de suas patinhas. Dou-lhe um sorriso e suspendo meu pé até a sombra dele cobrir-lhe. Assustada, seus movimentos tornam-se mais intensos, chego a sentir as vibrações de sua agonia. Mas não farei nada, ela merece sofrer mais um pouco. E digo isso em voz alta e clara para que possa me entender. Ouço o crack de seu esqueleto quebrando pressionado contra o piso, uma substância amarela se espalha pelo chão e faço questão de arrastar o pé para lá e para cá. Enganei você baratinha, porém, não pense que tenho pena ou compaixão, não aliviarei seu sofrimento.
Quero ter certeza de que extingui a sua existência, mas espero que não. Espero que continue viva por anos, agora sem patas para articular. Que seus restos sejam comidos por alguma lagartixa e que ainda consiga ver as paredes da boca do predador que a consome, completamente decepcionada por não poder fazer mais nada por si. Espero ainda que possa enxergar quando for excretada e que enxergue também a sua humilhante morte quando algum fungo decompuser seus olhos ainda saudáveis. Então a sua total anulação estará finda. Quero que veja e sinta com plenitude essa anulação e que possa curti-la do início ao fim, sendo eternamente grata por não fazer mais parte do tudo, porque baratas não têm alma.
38º dia do ano: O primeiro texto de 2006
Um Café da Manhã
Gosto do silêncio que está aqui e da atmosfera calma que a minha casa exala todas as manhãs quando o tempo está nublado e ela, vazia.
Sanduíches de presunto e queijo com chá. Um bom chá, quentinho, de sabor peculiar. Um café da manhã delicioso. Mas tenho que escolher entre continuar escrevendo ou deixar o pão queimar. Já queimei dois. O chá sempre me dá a esperança da inspiração. Chá cítrico ou silvestre? Cítrico. Sinto-me inspirado hoje e esse cheiro contribui para essa sensação. Cheiro de sol nascente. As manhãs são mais limpas, transparentes, saudáveis. Pronto, não queimei os últimos dois pães, felizmente.
Há muito não escrevo. Faltava-me inspiração? Talvez. A vida de um vestibulando nos últimos meses antes do temido exame é turbulenta, além de cruel. Sim, cruel. Durante mais de três meses fui obrigado a estacionar projetos e substituí-los por cálculos, estatísticas e probabilidades. A incerteza. A insegurança. Estive bem preparado para esta guerra? Fiz o melhor que pude, dei o máximo de mim. Sim, uma guerra. Uma guerra mental, cada batalha um massacre, cada resposta errada uma eliminação. Cruel, extremamente cruel. Para os sobreviventes apenas a exaustão. E os vencedores? Ainda não há resposta. Incerteza. Ainda incerteza. Mas para os perdedores a resposta já é definitiva, destroços, todos os destroços.
Período turvo, das trevas. Mas há aprendizagem em tudo e também novas descobertas. Descobri a filosofia. A esplêndida filosofia. Tão desvalorizada, tão crucial! Livros? Poucos e nenhum instigante, para não atrapalhar os estudos. Músicas? Ouvi até Feng Shui, tudo que pudesse me fazer relaxar e esquecer, por alguns instantes, a terrorista guerra que se aproximava era bem vindo. Amor? Desmaiou ou se perdeu, não havia tempo para esse privilégio. Físico? Destruído, assim como a mente, mas aparentemente bem. Aparentemente.
A recuperação se faz lenta e graduada. Ainda sinto os traumas da guerra, é preciso agir com sutileza, retomar o que foi momentaneamente esquecido. Muita calma. Paciência. Há dificuldades nessa retomada, conseqüências da guerra, que também rouba um pedaço da memória e da consciência. Perdas. Como em todas as guerras há muitas perdas, mas eu ainda não perdi. Incerteza. E se eu perder? Destroços, apenas destroços, todos os destroços se eu quiser, é tudo o que resta.
Silêncio? Ainda está aqui, mas já não é como antes, o dia avança e a manhã torna-se impura. O sol está carregado de luz e o frescor do vento agora dá lugar ao calor abafado que atravessa a cozinha. Os sanduíches já foram comidos e o chá esfriou, sobrou apenas um gosto e um cheiro artificial, mas felizmente, a inspiração ainda se encontra presente. O telefone toca. Quebra-se o silêncio. Quem será? Incerteza.
332º dia do ano: O Dono
O que dita com os olhos.
Embora não fosse noite, estava escuro e quente naquela salinha fechada embaixo da terra. O dia não foi completamente ensolarado e até choveu um pouco durante alguns instantes, mas nem a intensa ventania presente ali conseguia intimidar a manhã abafada.
Dentro da salinha, apenas cheiro de guardado e o calor que já deixava a pele pegajosa. Incríveis e indecifráveis sensações afloravam discretamente, o que fazer agora? Esperar... Sempre esperando pelo que vai acontecer, incapaz de dar o primeiro passo. Mas então lembro que sou eu quem faz as regras do jogo e sempre sou obedecido, na verdade, o escudo que uso para me defender é falso, é um mecanismo que me permite mandar usando o olhar e os gestos, sem utilizar palavras ou brados imperativos. Esqueço a minha perplexibilidade e o receio refletido em meus olhos bem abertos, que se perguntam onde e por que estão ali, transforma-se em exatidão através de um sorriso dissimulado. Sei muito bem o que fazer.
Dedos podem ser sentidos por todo o corpo e os meus também tocam a pele. Sem visibilidade, outros sentidos se encarregam da percepção. O ouvido recebia palavras sussurradas ao pé da orelha e o olfato sentia aquele cheiro tão peculiar crescendo e tornando-se mais forte à medida que o suor aumentava, escorrendo e molhando todo o chão. Mas já aí veio a insatisfação. Eu poderia fazer melhor do que aquilo sozinho. Sou individualista. E egoísta. Meus olhos se abriram novamente, embora os lábios ainda mantivessem o falso sorriso. Tudo agora era feito mecanicamente, afinal, qual o fundamento daquela prática? É sem nexo, instintível, irracional, e naquele momento a racionalidade havia regressado, assim como a perturbação.
No fim, tudo tornou-se impressão, como se nada tivesse acontecido, mas havia provas físicas naquela salinha, provas que garantiam a veracidade, asseguravam as lembranças. Então, me perguntam:
― Quer água?
― Sim, obrigado.
Eu, que já estava molhado de suor, me encontro desesperado, inundado em águas que não me permitiam ver o fim, vendo bolhas passarem por mim e atingirem a superfície, vitoriosas, enquanto eu apenas caía e caía para onde não havia nem terra para me enterrar. Ainda caía quando emergi acompanhado por algumas bolhas que, ao contrário de mim, subiam para alcançar a liberdade, pois no meu caso, subir à superfície era descer mais e mais.
Um corpo deslizante me aguardava. Dessa vez, a boca sentia a boca e o sorriso provocante se transformara em gargalhadas. Gargalhadas eufóricas, atordoadas, doentias. Não descobri o porquê de estar ali, mas já sabia onde estava: no fundo do poço.
303º dia do ano: Foi Real?
Quando acordei vi que não era um sonho. Estava lá a ligação gravada no celular. Não fora apenas idéias sem nexo, oriundas da minha mente, foi real, mesmo que agora esteja confuso sobre o que é a realidade.
Estou cansado de viver em meio a essa sujeira que deteriora, como sempre, o aspecto já decadente de tudo o que está intimamente ligado a mim, de tudo que está ao meu redor. Nessa sujeira, que me deprime, que me transforma em ameba, que facilita o meu estado de ócio, nunca senti meu corpo completamente limpo e nunca estive, de fato. Incapaz de arrancar essa casca podre que serve de envoltório à minha essência, procurei manter a mente sempre sóbria e sã, mas então você aparece, inesperadamente e inexplicavelmente, causando uma rachadura na casca e penetrando no que julguei intocável, atirando a minha consciência na lama, onde já se encontra o meu corpo.
Antes a perfeição, a beleza estética, havia aparecido e iluminado a minha escuridão com raios de luz que me davam esperança, logo após conheci um pouco de humanidade e agora identifico idéias em você, que ainda estou tentando sentir, para talvez compreender.
265º dia do ano: Por que fui acreditar em você?
No meio da sala sinto um vento frio que bate em meu pescoço, vozes estridentes se alastram e imitam gritos de sofrimento, de desespero. Às vezes parecem lamentos melancólicos, eles clamam por ajuda, por salvação. Mantenho meus olhos pregados às palavras na parede, os que me observam crêem na minha atenção, na minha compenetração, mas na realidade não assimilo os ganidos soltos no ar, não enxergo as cores que se movem à minha frente, não me identifico aqui dentro e às vezes pareço estar em outro plano, em outra dimensão.
Meus pensamentos se voltam a ti, se concentram, te cercam. Em tudo que vejo só enxergo a ti, a memória traz à tona constantemente tuas palavras formando frases que confundem a minha inteligência, sempre com raciocínios e sentimentos que muitas vezes são difíceis de acreditar. No entanto, chego a entender, chego a conhecer, mas tenho medo, afinal, pareço estar descobrindo mais um pouco do mundo. Estou descobrindo um mundo novo em você. Por que você me olha assim? O que você também está tentando descobrir? Por favor, diga que não é verdade, eu não quero acreditar no que suponho descobrir, é muito arriscado e sei que me arrependerei.
Aceito o desafio. Se eu cair você me ajudará a levantar?
250° dia do ano: Mais uma vez, ociosidade...
Encontro-me em meio à decepção. Mais uma vez a ociosidade veio me fazer companhia, está aqui ao meu lado, com seu sorriso cínico a me observar, encostada à mesa onde escrevo este desabafo e às vezes tentando empurrar minha mão a fim de atrapalhar minha escrita. Não que eu esteja desocupado, não é que nenhuma inspiração me venha à cabeça, muito pelo contrário, tenho tarefas até demais para cumprir e tempo muito limitado, mas com esse entrave à minha volta a concentração me falta. Minutos tornam-se preciosos, mas passam muito rápido e não estou sabendo aproveitá-los direito. Logo hoje que tinha tudo para dar certo, que tinha tudo para me colocar outra vez na linha... Logo hoje essa maldita ociosidade impõe-se a mim e me força a compactuar com ela, contra a minha vontade. Dessa vez não veio sozinha, trouxe seu primo Preguiça e juntos eles se tornam muito fortes, ao fim do dia, já não consigo vencê-los. Jurei não fraquejar, lutar, aniquila-los e mesmo ainda não desistindo por completo, vejo que não há saída, o jeito é dormir e esperar o amanhã, para continuar a minha vida.
218º dia do ano: Frases soltas de um sábado adolescente
Eu tenho medo do exército.
Varrer a casa todos os dias é perda de tempo.
O estudo da eletrostática não acrescenta nada á minha existência.
Quando eu era criança achava o rodo incrível.
Merda! Não vai dar tempo.
Detesto usar água sanitária, capaz de me cortar a mão.
Será que minha irmã me viu nu?
205º dia do ano: Sexualmente em flamas
Um súbito impulso de inspiração me fez sentar e escrever o meu 7º poema. Pode até parecer frio, animalesco ou sem escrúpulos, mas essa é a idéia: ser cru.
Canibalismo
A carne humana é excitante
Exala odores provocantes
Estou sexualmente em flamas
Pronto para entrar em êxtase
Meus instintos queimam por dentro
Uma fome devastadora cresce
Tento resistir
Mas sinais trêmulos aumentam o meu desejo
Perco-me nos meus anseios
Ataco sem piedade a minha presa
Arrancando pedaços
Com sangue escorrendo pelo meu pescoço
Gosto de sentir músculos entre os dentes
Gosto de palitá-los com ossos
Gosto do colorido dos vasos sanguíneos
Gosto de sentir o coração ainda pulsando em minhas mãos
Gosto de comer orelhas
Gosto de comer pernas
Gosto de comer línguas
Gosto de comer...
Renato Medeiros 23/07/2005 20:40 hs
185º dia do ano: Meia Década
Nestes primeiros dias de Julho ficamos mais distantes do ano 2000 e mais próximos de 2010, chegando assim ao fim de mais uma década. Isto me assusta, as horas correm e fazem os dias serem tão curtos, logo colecionam-se 12 meses e os anos passam desapercebidos. Sinto que estou ficando mais e mais velho, percebo que perco a minha inocência, sendo obrigado a adquirir responsabilidades e deveres que não estou certo se poderei cumprir.
Nessa metade de década fizemos história, evoluímos em alguns aspectos e involuimos em outros, mas o desejo de encontrar a felicidade permaneceu. Nessa outra metade que se inicia só me resta terminar a minha adolescência e fazer valer a pena, não me arrependo de nada do que fiz porque graças a isso eu estou aqui, ainda lutando e ainda vencendo.
2000 está cada vez mais longe, então que venha 2010.
172° dia do ano: Cúmplices
De um lado, a lua enorme com suas grandes manchas, do outro, nuvens rosadas tentam esconder os últimos feixes de luz do sol que ainda insistem em brilhar atrasando a noite. Um belíssimo quadro vivo em mutação e eu a observar esta batalha através das janelas do meu escuro banheiro, que agora cheira a água sanitária. Muito raro a lua aparecer assim tão esplendorosa, mas hoje era mesmo um dia especial e o dediquei ao meu quarto, que tanto amo. O meu confidente mais íntimo, o único que sabe todos os detalhes da minha vida e que nunca contará a ninguém, é ele que guarda todas as minhas coisas, ele que zela pelo meu sono, ele que me protege, ele que me conforta quando estou cansado e quando estou triste. Ele merecia que essa dia fosse dele, merecia a minha retribuição por ser tão bom comigo, merecia que eu arrancasse todas as teias de aranha do teto, merecia que eu espanasse os móveis, merecia que eu limpasse e lavasse os objetos, merecia que eu varresse o chão, enfim, merecia todas as gotas de suor que derramei e todo esforço que fiz para torná-lo mais habitável, mais respirável...
Nós somos cúmplices e temos que cuidar um do outro.
Não sou mais o rei dos ácaros, pelo menos por hoje.
162º dia do ano: Recapitulação
Você me fazia feliz sempre quando estava ao meu lado, despertou em mim um amor puro e inocente, mesmo que tenha rasgado todas as minhas cartinhas. Nunca tive coragem de te dizer o que sentia, éramos apenas duas crianças e hoje, quando raramente te vejo, não encontro mais a menininha com aqueles cachinhos dourados que brilhavam como o sol, mas ainda lembro da sua casa, do seu número de telefone e do seu rosto, que jamais esquecerei.
Você foi o meu primeiro beijo. Como éramos bons nisso! Nunca foi bonita, mas o coração não liga para isso, era completamente diferente de mim e eu adorava quando você explodia por nada, quando o seu gênio incontrolável gritava por aí, quando desafiava a tudo e a todos e quando a sua loucura me deixava mais apaixonado. Eu te amei...
Você foi a primeira que me fez sentir como o beijo sem amor é ruim. Lembro de quando ia à sua casa para "estudar" história, era tão excitante... Mas nunca conseguiria te ver com outros olhos, você é minha amiga e assim tem sido desde 1997.
Você foi a primeira desconhecida que beijei. Estava com tanto medo e ao mesmo tempo tão curioso, mas aquele momento na escada do colégio foi maravilhoso e me sinto feliz por você ainda fazer parte da minha vida.
Você foi um erro. Jamais deveria ter deixado as minhas incertezas confundirem a nossa amizade. Ainda me arrependo, ainda lamento aquela câimbra, ainda sinto o gosto ruim dos nossos beijos tão mecânicos. Fui um idiota...
Você aconteceu na minha vida da forma mais inesperada, tentei ser o melhor que pude, fazer tudo corretamente, ser sincero, ser coerente e você só soube me enganar, disfarçar, dissimular. Tudo foi uma grande mentira e quase perdi alguém que vale muito mais que isso. Te odeio.
Você é o caso mais delicado. Lembro de quando te telefonava e não falávamos nada, lembro daquelas cartas tão infantis, lembro que sonhava contigo todas as noites e lembro que você nunca me quis. Tive que aprender a conviver com a dor e hoje não sofro mais, nem mesmo quando você brinca comigo. És a minha personagem favorita, ainda te amo e você sabe disso.
Você passou pela minha vida tão sutilmente e infelizmente não significou nada para mim, desculpe-me por ter te usado para tentar esquecer outra pessoa, você não merecia isso.
Você foi um brinquedo para mim, mas durou mais tempo do que planejei e acabou me ensinando que a dedicação ao outro, carinhos, gestos sensíveis e palavras agradáveis ajudam a manter um relacionamento. Saiba que foi muito importante para mim, mesmo que eu nunca tenha sentido nada por ti. É uma pena que não conseguimos manter uma amizade.
Você é tão tola e mesmo assim foi a primeira que me fez sentir inferior aos outros. O seu beijo me cortou e deixou feridas na minha boca. Desculpe, mas não consigo deixar de ter pena de você.
Você foi uma ilusão que conseguiu me deixar apaixonado em poucas horas. Éramos tão parecidos, tínhamos uma sintonia esplêndida e os seus beijos me incendiavam. Quando te vejo tremo por inteiro, acho que ainda te amo, será? Você mudou a minha vida inteiramente, passei a ver muitas coisas com outros olhos. Queria tanto você ainda ao meu lado...
Você foi o que aconteceu de mais sensato, o relacionamento mais maduro, o que me inspirava responsabilidade. Com você senti que minha adolescência está chegando ao fim, aprendi muita coisa e creio que se não tivesse feito contigo, aquilo não teria sido tão bom. Guardo um carinho enorme por ti.
148º dia do ano: Ferida Exposta
Novamente o acaso nos colocou frente a frente. Quando te vi senti aquela sensação que só você consegue despertar em mim. As pernas tremeram gélidas, comecei a suar, estava nervoso.
Estivemos juntos de novo nos mesmos lugares, fazendo as mesmas coisas... Nada mudou, mas tudo mudou. Tentamos disfarçar, procuramos desviar os olhares, medir as palavras e esse seu perfume... Você ainda usa o mesmo perfume! Foi tão difícil me controlar...
Estive perdido nos últimos dias, sem saber que direção tomar, então você aparece e pela segunda vez me faz querer jogar tudo para o alto. Será que o acaso quer me mostrar novas possibilidades? É muito doloroso conhecer a verdade principalmente quando nos enchemos de falsas expectativas.
Ainda sou o mesmo, quem sabe até um pouco acabado, mas ainda sim o mesmo. E você? Você mudou, deixou uma lacuna em mim e mesmo depois de tanto tempo ainda sinto o vazio, não sei como fechar.
125º dia do ano: O Viajanismo foi consumado!
No dia 3 de Maio de 2005, três amigos conversavam em uma sala de aula vazia sobre assuntos diversos, mas subtamente uma luz invadiu o pensamento deles e idéias começaram a fluir simultaneamente de suas cabecinhas ascendentes, bastou uma borracha sobre uma folha de papel e um punhado de redundâncias, pleonasmos e ambiguidades para que pensamentos filosóficos surgissem...Foi aí que apareceu o VIAJANISMO, que pretende se tornar a nova escola literária do Brasil trazendo mudanças significativas para a cultura do país. O escritor Viajanista defende a transformação do feio em bonito, portanto, são permitidos erros gravíssimos de linguagem em seus textos, uma completa confusão de idéias e histórias impossivelmente impossíveis de serem imaginadas por qualquer outro escritor do passado, por mais mirabolante que ele tenha sido.
Fundado por (em ordem alfabética): Máximo Ferreira, Nelson André e Renato Medeiros, o Viajanismo já conta hoje (quase 3 dias depois de seu nascimento) com mais 5 autores: Laís Leite, Tatianna Voronkoff, Pedro Víctor, Alline Lamenha e Elen Toledo.
VIVA O VIAJANISMO!!!
Aí vai o primeiro texto Viajanista escrito por Renato Medeiros...
Maldita Porta!
Essa porta abre muito!
A todo instante tem alguém entrando e saindo dessa sala. É um abre e fecha que não acaba mais e essa zoadinha me irrita, me irrita muito, eu fico possesso, é como se um espírito nazista tomasse conta das minhas entranhas e me enchesse de ódio contra essa abominável porta, essa porta desgraçada que ainda insiste em abrir e fechar, abrir e fechar, abrir e fechar... Ás vezes penso que ela olha cinicamente para mim, me provocando, me testando, mas no dia em que eu conquistar forças maiores para derrubá-la passarei a olhá-la sarcasticamente e darei aquele risinho básico como se quisesse dizer: "Sou melhor que você, venci!". Então a minha vingança estará cumprida.
Mas e essas pessoas que passam pela porta? Devo odiá-las também? Afinal, elas contribuem para que a porta continue com o seu insuportável e repugnante abre e fecha. A verdade é que alguns desses que vão e que vêm são vítimas dela, são seres do bem, têm cérebros brilhantes e esperam por carreiras promissoras, mas por outro lado, seres vomitáveis ajudam explicitamente com a saga da porta, sim, e mais tarde essa maldade ou crueldade incubada se refletirá em nossa comunidade social, alguns deles serão políticos corruptos, outros pedófilos, outros violentarão idosos, a maioria se casará e o pior caso é o daqueles que se tornarão padres, pois foram iludidos a vida inteira e agora se preparam para iludir outras cabeças propícias ao mito. Ah! Já ia esquecendo do marceneiro, que é quem constroi malditas portas como esta.
108º dia do ano: O Acaso
Casas, árvores e ruas passavam pelos meus olhos vazios, tinha tanta gente, até que, de repente, o improvável aconteceu...
Os meus olhos arregalados tentavam compreender tudo aquilo, tentavam admitir que aquilo era a realidade, que aquilo era a minha vida. Minhas pernas começaram a tremer, uma inquietação foi tomando conta do meu corpo, se espalhando por todos os meus sentidos e arrepiando todos os meus poros.
Eu desejei tanto isso há algum tempo atrás, eu queria tanto, eu podia até prever, mas era impossível. O acaso fez tudo parecer tão simples, resolveu de uma só vez todas as incógnitas, ilustrou perfeitamente e com riqueza de detalhes o que eu tinha na memória.
Foram segundos que valeram por horas, por dias...Finalmente acabou. Deveria estar mais tranqüilo, mas as dúvidas inundam a minha mente, não sobre o passado, e sim sobre o futuro...
E agora, como será o futuro?
91º dia do ano: Estado de Sitío
Tenho quinze minutos para escrever isto.
Com as pernas queimando, o suor jorrando e o cansaço consumindo os meus nervos...eu cheguei há pouco tempo em casa e tomei banho. Muitos no meu lugar aproveitariam para deitar e relaxar, afinal hoje é sexta-feira, mas não posso parar, tenho muito a fazer...O quê mesmo? Nem lembro! São tantas coisas, tantos pensamentos, tantas cobranças que tudo acaba sem nem mesmo começar.
Os dias têm sido muito curtos e muito limitados, preciso de uma revolução...uma Revolução Renatista, algo inovador, inesperado, radical, algo que possa dar expressão à continuição da minha vida. Convocar uma assembléia, promulgar uma constituição pessoal, colocar ordem nas repartições públicas do meu corpo: pulmões, coração, estômago, intestinos, unhas, olhos etc... Colocar ordem nas propriedades privadas do meu eu: cultura, humor, amor, social, mente etc... Virar um antropófago que se alimente de mim mesmo, que mastigue tudo o que há de bom e também tudo o que não presta. Instaurar o Renatismo: nova forma de pensar no mundo que tem como base algo que eu ainda vou inventar.
Agora um apelo: Elementos revoltosos do meu ser, unam-se e deponham de mim toda preguiça, incompetência, fraqueza e acomodação!
VIVA A REVOLUÇÃO RENATISTA!!!
Lema: Atitude, Determinação e Disciplina!
Bom, e a vida...continua continuando e mais uma vez ela não esperou por mim...mais uma vez estou atrasado...
81º dia do ano: Confesso
Perguntei as horas, são 8:35 da manhã, estou com frio e nervoso. Tem algumas pessoas ao meu redor, mas nenhuma delas me interessam agora. Nenhuma delas sequer imaginam o que estou escrevendo bem ao lados delas.
Sinto que chegou o momento de falar sobre alguns detalhes da minha vida, algumas pequenas particularidades que sempre me acompanharam... por toda vida. Não posso fingir que não é verdade, não posso mentir para mim mesmo a minha vida inteira, eu quero ser autêntico comigo, não vou viver em uma ilusão, não vou viver em um mundinho de faz de conta, não vou transformar a minha vida em uma peça teatral, onde eu serei o ator principal...
Tem sido muito difícil, olhe para mim, tem sido muito difícil para mim há dezessete anos, são dezessete longos anos... Mas eu continuo aqui, continuo vivendo e não vivo apenas por viver, não vivo porque simplesmente é mais fácil viver do que morrer... Eu vivo porque me amo, eu vivo porque te amo...
71º dia do ano: Detalhe de Perfume
Fiz esse desenho em 2003 e o batizei com o nome de "Perfume", não sei o por quê do nome escolhido, mas talvez tenha sido por causa do olhar enigmático, essa mulher retrata algo que ainda não consigo compreender e o mais estranho é que fui eu mesmo que fiz, talvez ela tenha ganho vida própria e não dependa das minhas intenções, do que eu quis transmitir...
Esse não é o desenho original, é apenas o rosto, um detalhe...
54º dia do ano: Registrando pensamentos vazios...
Sinto a necessidade de registrar os meus pensamentos, mas por onde começar? Bom, resolvi começar registrando essa necessidade para ter alguma idéia sobre o que vou falar no texto...Poderia falar sobre os meus sentimentos, sobre o dia de hoje, sobre as pessoas que estão à minha volta, sobre como elas me vêm ou sobre como eu as vejo. Tudo parece estar bem, estou na sala de aula, quieto, escrevendo...Alguns dos meus colegas nem sabem que estou aqui, mas outros podem estar até se perguntando sobre o que estou escrevendo. Tudo é tão subjetivo, já tive tantas surpresas que as várias formas de interpretação não me assustam mais.
Preciso pensar bastante sobre o quê escrever...Tomei essa iniciativa depois da aula de literatura, não sei por quê, mas sinto que o meu eu verdadeiro - que também pode ser chamado de "meu jeito estranho de ser" - está voltando e isso é bom...Tenho necessidade de ler, de saber, de conhecer, de discutir, mas quero desesperadamente saber como escrever e finalmente decidir o quê escrever...é por isso que estou registrando isso, porque quero chegar a uma definição, mas está muito difícil achar a simplicidade da complexidade da simplicidade...
Que merda! Continuo escrevendo coisas sem sentido, escrevendo tudo que vem na minha cabeça, mas não consigo encontrar caminhos para registrar meus pensamentos e assim esse texto acaba sem nenhum significado, termina sendo um nada, um monte de letras agarradas umas nas outras...eita, mas agora eu percebi, esse texto que escrevo é um registro dos meus pensamentos, é o registro do que eu pretendia registrar, mas que acabou se transformando num grande vazio. Então será que os meus pensamentos são vazios e não querem dizer nada?
44º dia do ano: De observador à personagem principal
De repente eu saí do transe e levei um susto! Onde estou? Por que estou aqui? Pensei que tudo isto pudesse ser um filme ou que eu estivesse lendo um livro, mas não! É tudo real, agora de observador passei a ser personagem principal. Eu não devia estar aqui, eu não podia ter feito isso de novo, ou podia? Está tudo errado, fiz tudo errado...mas o que eu realmente deveria ter feito? Resistido? Deveria ter fingido que não sou assim e ter ignorado a situação, ignorado a mim mesmo? Não foi isso que eu sonhei para mim, não foi mesmo, tinha tudo calculado na mente, era um sonho perfeito, mas infelizmente (ou felizmente) a vida é imprevisível e faço questão de ser também. Um dia não terei mais medo de admitir como as coisas aconteceram e de que o meu plano fracassou. Eu tinha que ser eu mesmo, e fui...